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terça-feira, 24 de setembro de 2013

1934: Alberto Moravia


Heinrich Kleist & Henriqueta Vogel
by 

kar2nist


Duplo suicídio? 

Um "belo" suicídio a dois, à moda de Kleist: Lucio, protagonista do livro do mês de Outubro 2013 no CLIc, flerta com o suicídio por desespero, enquanto Beate por razões estéticas.

O tema do livro é instigante. Será que nossa vida nos pertence? Dizem que, na França, quem tenta o suicídio e não morre é preso. Não sei se é verdade.

Somos muito determinados pelos outros, veja só, nem nosso nome somos nós que escolhemos. Se alguém não tivesse cuidado da gente quando nascemos, certamente não sobreviveríamos. Por outro lado, temos a clara sensação de que ser livre é nossa condição inata. Somos livres para fazer o que a vida nos possibilita (mas só o que a vida nos possibilita!), inclusive negá-la, literalmente.

Acho que o suicídio não é uma questão de decisão pessoal, mas o resultado de projetos de vida, em geral, inconscientes (em geral, gente!), que pode ter originado antes mesmo do nascimento da pessoa, em síndromes familiares. Na melhor das hipóteses, são devaneios irresponsáveis, como o ocorrido em 1934, que achei magnífico. 

Achei 1934 apenas suavemente desesperado! Explico:

Lucio quer estabilizar o desespero, seja porque o considera a condição normal da existência humana, seja porque se sente fascinado pela questão, sobretudo, do duplo suicídio como um possível ato de amor. O desespero do personagem é um tanto superficial, não se comparando ao sentimento expresso nas citações filosóficas de a seguir. Longe disso! A trama se desenrola num espírito totalmente diverso, divertida. Lucio chega ao ridículo de se desesperar por estar se sentindo maravilhosamente bem em usufruir das delicias de um banho de mar na ensolarada Piccola Marina. Sem dúvida que se trata de uma narrativa bem humorada e irreverente, o desespero sendo, talvez, uma forma de atrair a cumplicidade do leitor na aventura bizarra de um intelectual burguês. O desespero para Lucio me parece apenas um conceito. A suposta vontade de cometer um suicídio duplo é puro jogo de cena, resulta de uma mescla de desejo erótico e fascinação mórbida. Não garanto, no entanto, que seja isso que o leitor vá encontrar nas páginas de "1934". Prepare-se para o inesperado. "Profundo é o mundo, e mais profundo que nos pensamentos do dia". 


Citações filosóficas sobre o suicídio:

"Aquele que ama a vida com prudência, já está moralmente morto, pois sua mais intensa força vital, que é de podê-la sacrificar, atrofia-se, quando ele cerca-se de cuidados". (Heinrich Von Kleist)

Camus inicia sua obra "O mito de Sísifo" afirmando: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”;

Emil Cioran flerta com o suicídio e se indaga: "Por que eu não me mato?” Em outro momento ele responde: “faz bem pensar que a gente vai se matar”;

Assim falava Nietzsche:  “A ideia do suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim”;

Para os estóicos “o suicídio é visto como um ato de razão";

Para Tomás de Aquino "o suicídio é sempre pecado mortal, porque vai contra à caridade e à lei natural”.

Dante lança ao fogo do inferno todos os suicidas;

Para Kierkegaard, "o suicídio é o sinal mais claro de que o indivíduo deixou-se vencer pela doença mortal, o Desespero";


  

Algumas passagens marcantes do livro

  1. "Amo-o e sei que você também me ama, mas entre nós dois não existirá nada mais do que olhares. Uma verdadeira e completa relação entre nós é impossível.
  2. "Assim, iniciou-se uma espécie de diálogo entre os nossos olhos, que durou até o momento em que o vapor entrou no porto de Capri. Eu a olhava e ela me olhava. Com surpresa, descobria qualquer coisa que sempre soube, mas nunca experimentei, isto é, que com os olhos se pode não apenas comunicar, mas também falar de maneira particular e distinta... " 
  3. "No meu lugar, sentia-me mais uma vez no estado de espírito desconcertante, e que para mim não era novo, de estar desesperado por não estar desesperado. Isto é: o desespero estava incubado no fundo de minha alma, como para sempre; mas isso não me impedia de apreciar o lindo dia, a paisagem magnífica, a boa comida e, naturalmente, a beleza áspera e ambígua de Trude. Poderia ser a chamada estabilização (do desespero) que eu perseguia há tanto tempo? Seria o desespero estável e normal que permite gozarmos o próprio prazer da vida, aliás gozá-lo ainda mais, já que não esperamos mais nada? Mas, em lugar da estabilização, tudo isso não ameaçava levar-me a uma espécie de hipocrisia? A sentir-me desesperado e, ao mesmo tempo, a comer e beber à vontade, a fazer amor sem remorsos e a exaltar-me liricamente com a natureza?"

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